sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Higienópolis sem onze e meia...

Rueiro inveterado este cronista de rua sempre foi avesso à TV. Hoje, por exemplo, minha grade de canais se restringe apenas a canais de esportes. Só pra ver o meu Palmeiras, sim senhor! Netflix e Amazon suprem outras necessidades culturais. Olha aí o merchan gratuito gente!

Mas insone renitente havia certo programa televisivo que despertava minha atenção, como se eu conseguisse dormir! A atração chamava-se “ Jô 11 e meia'', só no nome, pois das 23:30 horas o programa nunca começava antes da meia noite. Assim madrugada adentro um certo "gordinho" simpático, inteligente, culto e bem humorado enchia a tela da minha TV. Por ele o aparelho se ligava!

O carismático entrevistador, e sua indefectível caneca, brilhavam tanto ou mais que os ilustres entrevistados. Estes descontraídos e arrebatados se rendiam ao apresentador e produziam deliciosas e interessantes entrevistas. Enfim, era difícil resistir ao seu humor inteligente. Eclético, inspirado e inquieto em outros momentos ele já havia produzido impagáveis e inesquecíveis personagens humorísticos.

O seu programa de entrevistas era um cultural gozo televisivo! Que arrancava gargalhadas até do sisudo Bira! Bira, Derico e a banda, todos comandados pelo "maestro" Jô. Televisão, teatro, cinema, literatura, pintura nada passou ileso ao inesgotável talento daquele fanático torcedor do tricolor das laranjeiras. Carioca de nascimento paulista por opção. Assim o dizia.

Diplomata, poeta, escritor, jornalista, dramaturgo, diretor e ator de televisão, cinema e teatro, músico e artista plástico. Num momento de escassez de inteligência sua genialidade fará muita falta. Descanse em paz, José EuGÊNIO Soares! Beijo pro gordo!!

domingo, 10 de julho de 2022

O câmbio automático e a cerveja sem álcool

Aqueles que me seguem, tem louco pra tudo, já devem ter lido sobre o meu tio Antônio e sua velha e muito usada perua Kombi. Ela era o seu ganha-pão, com queijo, financiada pelo Bradesco com a interveniência e apoio monetário da sua cunhada, Dona Eudette. Em infindáveis prestações a perder de vista e do bolso.

Tonho mineiro, assim chamado pelos amigos, era um sujeito simples com pouca escolaridade mas muito trabalhador. Ele e a dona Marcela, irmã mais velha da minha mãe, me criaram. A italianinha brava que fazia costuras para fora e dentro tecia a cabeça do seu marido.

Ainda pivete fui muitas vezes levado ao antigo Palestra Itália. Sim, foi meu tio e a sua destemida Kombi que me apresentaram à minha paixão em verde e branco. 

"Eu sou Palmeiras sim senhor
E bebo todas que vier
E canto meu porco
Meu único amor!
E dá-lhe, dá-lhe, dá-lhe, ô
E dá-lhe, dá-lhe, dá-lhe, ô..."

E, ainda, mais tarde, o seu Antônio e sua "máquina" que me ensinaram a dirigir. A boa e velha perua que cheirava a queijo, aquele mesmo que meu padrinho entregava como motorista dos Teixeiras. Fim dos merchans! Até porquê nem a família do Amador Aguiar nem a do Teixeira vão me pagar cachê por esta crônica de botequim.

A máquina com seus eflúvios queijeiros tinha seu volantão mecânico, para-choque modelo joelhos de motorista e câmbio manual, aquele que era do tamanho de uma perna. Pilotagem raiz!

E por falar em beber todas, a Kombi não era a álcool, mas aquele palmeirense bebia todas sim senhor, afinal o bom e sofrido mineiro não era de ferro. Mas ele era tranquilo, mesmo a cachaça não o tirava da sua zenzice mineira.  E a sorte do Tonho é que naquela época não havia bafômetro, inspeção veicular nem outros "trem" desses. Já a minha é que ele era um excelente motorista. Mandava bem mesmo, não em casa é claro...

Hoje devidamente incorporado ao mundo automobilístico do câmbio automático me sinto monotonamente ocioso ao volante.

Afinal é cômodo mas, mano, tira o prazer da pilotagem, aquele de engatar a quinta e acelerar! Parece que o bólido está menos nas suas mãos. Desconfio até que o tio Antônio ia achar o câmbio automático igual a cerveja sem álcool, a qual ele nunca bebeu. Uai...

sábado, 25 de junho de 2022

Paraíso, borrachudos, cachaça, sexo e rock'roll!

Hoje vi uma foto de Trindade (RJ). De imediato lembrei do lugar que conheci quando eu tinha exatos 20 anos. Faz tempo... Tanto que para chegar lá, à época, só havia uma trilha de terra de 7 kms. A pé. Não tinha acesso de carro. Os ditos-cujos ficavam lá em cima na Rio-Santos.

Ou seja ainda não era modinha. Nem rolê de classe. Sem badalações. Nem infraestrutura. Era cachaça, sexo, rock'roll e... Raiz! Nada nutella!.

Naquele tempo este cronista de botequim, e de praia, era assíduo acampante. No mato, no morro ou na praia eu armava a barraca...

Porém, por várias circunstâncias, aquela "trip" foi marcante. Assim como outras, mas deixemos essas pra outros rabiscos.

A primeira nuance diz respeito a um detalhe que descobri naquela viagem. Tenho reação alérgica à picada de borrachudo. Calma, antes que meus leitores mais maliciosos deturpem esclareço que se trata de picada de inseto. Sem mimimi

Lá em Trindade, o prato do dia, e da noite, era peixe. Pescado no próprio dia pelo pescador dono do boteco, sem estrelas pois todas elas estavam à noite no céu. Uma pintura digna de poesia.

O peixe era acompanhado por duas garrafas de cerveja entornadas no copo especial da casa. De louça branca. Sim era um penico que eu torcia para não ter sido usado para sua finalidade precípua.

Certa noite, empolgado pela visão paradisíaca da ilha, do céu e por muita cachaça resolvi levar a barraca pra beira mar. Maré subiu e acordamos numa cabana flutuante.

O banho era na cachoeira, sem banheiro, chuveiro nem hidromassagem. Natureza pura na pele. Tudo perfeito!! Menos a tal da alergia. Com os dias passando aquelas feridas viravam uma espécie de bolhas d'água. E como coçavam!

Na volta subimos os sete quilômetros de terra. Em forma e trilheiro não era problema. A não ser os pés inchados pelas picadas de borrachudo. Aí, volta de carnaval, encaramos mais sete horas de estrada até Sampa. Minha companheira não dirigia.

Enfim chegamos em Sampa, mais propriamente dito no PS. Com reação alérgica e mais de 38 de febre. A única certeza era de que as havaianas não deformam, não têm cheiro nem soltam as tiras. O hábil médico teve que cortar com tesoura as tiras do chinelo grudadas no pé em formato de bola. Coisas de amante de futebol...

sexta-feira, 13 de maio de 2022

Cecilia, a Santa nossa de cada dia...

Essa tinha que virar crônica. Virou em dez minutos. Moro numa região limítrofe entre os bairros de Santa Cecília e Higienópolis em São Paulo. Ainda no lado de Santa Cecília. Se atravessar a rua já estou em Higienópolis. 

Para quem não é de Sampa esclareço que Santa Cecília é um bairro digamos assim mais popular e Higienópolis mais elitista, de colonização predominante judia. Cecília, a Santa, é mais despojada, rebelde, poética e divertida. Mais a cara deste cronista de botequim. Perto do Minhocão, das suas poesias de rua e da intelectualidade do baixo Augusta.

Dia desses nessa faixa de gaza, entre Cecília e Israel. Eu sei que não devo brincar com esse assunto. A última vez que citei as diferenças entre os dois bairros, nítidas e marcantes, levei algumas "canceladas" da galera do andar de cima. 

Mas não adianta, o rabisqueiro é zombeteiro, irreverente e não tem muito juízo... Ainda mais numa sexta, 13!!

O problema é que o pessoal do andar de cima tem certa "impaciência" com a galera do andar de baixo. Outro dia parei 10,5 segundos pra estender o braço e entregar uma baguete para um morador de rua e tomei um buzinaço na retaguarda que só me restou gritar "fora bolsonaro"... 

Enfim, nesse tal dia, o da faixa de Gaza, na porta duma farmácia um mendigo me pediu pra eu comprar desodorante pra ele. Sai rápido porque não tinha o que eu queria e esqueci mesmo do pedido. 

Na saída ele me olhou, aí me lembrei dele e até expliquei que não tinha comprado nada. Pediu, então, uns "trocados" ao que respondi que não tinha nenhum no bolso. Absoluta verdade. Sem hesitar ele falou "me faz um Pix". Bendita a ainda sobrevivente democracia! Resta agora a distribuição de renda!

sexta-feira, 6 de maio de 2022

Palavras...

Verbos em punho 
escrever é um ato de subversão 
amor e inteligência
luta e paixão 
questão de sobrevivência 
arrebatamento d'alma e coração 

Palavra, linda e absoluta 
intima e confidente
intensa no amor 
parceira na luta 
solidária na dor

Elas estão por ai 
à espera duma sentença
de um dom 
que as namore 
tire pra dançar
e mesmo a palavra mais inquieta e intensa 
diz que... nada é mais subversivo que amar...

quinta-feira, 28 de abril de 2022

Transbordos, orgasmos e partos

Neste mês de abril o blog "Crônicas, poesias e outras baboseiras...! completa 10 anos. Eu tinha feito um pequeno post informativo para tratar o assunto. Meia dúzia de linhas. Curto e grosso. 

Antes de publicá-lo mostrei o para uma amiga virtual. Baiana arretada, colega do banco e especialista em marketing e divulgação. Ela, que me conhece através dos meus rabiscos, foi cirúrgica.

 Disse que "ficou parecendo folheto de sinal. Que faltava leveza e humor. E que não estava à altura da minha inteligência, talento e criatividade". Morde e assopra rs 

Ainda argumentei que não era uma crônica e sim um postzinho. Mas parei e pensei. Quase sempre aceito feedbacks. Ou às vezes? Raramente? Tá bom dessa vez aceitei! 

O blog, o tal aniversariante, nasceu em abril de 2012. Sob o signo de áries, ascendente em gêmeos e lua na casa... da mãe Joana. Foi parido para registrar e "guardar" os devaneios de um bancário, metido a poeta e cronista.

Antes disso muita coisa tinha se perdido em folhas de caderno, de blocos de anotações, papel com pauta, ou de improviso mesmo e, até, em arquivos dos PC's da vida. 

O blog conta atualmente com 128 publicações. Ele é, com os seus 69 primeiros rabiscos, pai dos livros "La vitta scritta in versi" e "La vitta scritta in prosa ". 

Enfim rabiscar para mim é um transbordo, catarse. Um orgasmo. E assim esses 69 foram só preliminares. Já este ano o terceiro filho, ops livro, vem ai...

Os três pês, a elite e a turma do andar de baixo

No Brasil a “lei é para todos”: pobres, pretos e putas. Esta era afirmação corrente nos anos 80 do século passado dita por críticos sociais. No próprio meio jurídico, conforme cita matéria do https://diariodoengenho.com.br de 25.06.2018, figuras como o promotor de justiça e professor de Direito Penal na UNIMEP, o Dr. José Ribeiro Borges, em Semana Jurídica promovida pelo Curso de Direito, causou grande surpresa ao dizer que no Brasil, infelizmente, a cadeia era ainda destinada e caracterizada pelos “três pês”. Ou seja: para os pobres, pretos e putas.

Respeitados o conhecimento e saber jurídico dos mestres da área e de outros críticos sociais que criaram essa triste e verdadeira afirmação, este impertinente cronista de botequim tomará a ousada liberdade de fazer duas ressalvas a essa brilhante tese, incluiria um quarto P de petistas neste grupo e faria a observação de que as putas alvo das garras da lei seriam as pobres, as valentes trabalhadoras.

Essa perversa realidade mostra a falta de políticas publicas democráticas de inclusão social. Ah está faltando políticas públicas? Mas e o Lula? E o PT? Sim, amável e fiel gado, foi nos governos do PT e do LULA que tais políticas foram mais prioritariamente implementadas. Há até um certo número que qualquer brasileiro ainda que desavisado já deve ter ouvido falar, 40 milhões de compatriotas nossos saíram da linha da miséria absoluta durante os governos do PT.

O drama fica ainda maior se notarmos que a maioria da população pobre é preta, o que potencializa o efeito nefasto desta realidade. E aí os pretos que rompem essa barreira da pobreza e conseguem fazer sucesso em suas carreiras ou áreas de atuação são vistos com “nariz torto” pela elite de supremacia branca. Edson Arantes do Nascimento, muito mais do que pela sua genialidade futebolística conquistou a elite com a sua subserviência e “doçura”. Como diziam os antigos, ainda antes do advento da lei racial, “era um preto de alma branca”. Até escrever isso dá náuseas.

Por outro lado, hoje zapeando os noticiários soube da 13ª colocação de Lewis Hamilton no GP de Ímola, inexplicável para a equipe Mercedes que reinou absoluta nos últimos anos na Fórmula 1 e para o piloto que o ano retrasado conquistou o heptacampeonato da categoria. Sem querer esmiuçar as teses de desenvolvimento das equipes, uma vez que a F1 é um “esporte” que o fator determinante para a vitória é a máquina. Senão vejamos Schumacker, Senna, Prost, Piquet, Emerson, Stwart, o próprio Hamilton qual grande campeão assim o foi guiando numa escuderia que não fosse de ponta?


Mas o que me causou espanto eram os comentários interativos dos leitores das matérias, alguns questionando o talento do piloto britânico, em contrapartida muitos o defendiam, mas havia um outro grupo que chegava a desmerecer Hamilton, de forma rude, pejorativa e até raivosa. Ai bingo! Independente das qualidades do piloto, que na modesta opinião deste rabisqueiro está entre os melhores de todos os tempos, o problema de Lewis é ser preto num esporte caro dominado por brancos, que preferem os olhos claros dos pilotos nórdicos. 

E, ao contrário do rei Pelé e do sub príncipe Neymar, Lewis compra brigas dos pretos, escancara as injustiças sociais, protesta nos suntuosos autódromos contra a violência racial e isso mais do que sua habilidade ou não de pilotar parece “incomodar” a elite branca, perfeitamente representada na milionária Fórmula 1.