sábado, 11 de novembro de 2017

PRELÚDIO

Amores de menina
agouro de bruxos
aves de rapina
tudo que começa
mas nunca termina

Dia a dia
o que não morre de cotidiano
sobrevive por amor
ainda que calado
prazer adormecido pela dor

Ensaio de nova vida
Compromisso de outros tempos
interrompido pela partida
com a mudança dos ventos

Eterno prelúdio
do sentimento que pulsa latente
e de repente renasce
silenciosa e desvairadamente...

PARADOXOS CONVERGENTES

Rasgam os véus dilaceram a pele em traços
Deslumbre carência de menina bonita 

Apaixonada, obcecada e... aflita
Frágil corajosa, errante em seus passos 

Intensa e fugaz mata-se por amor
Renasce ainda mais bela da própria dor

Verso tupi poesia cabocla 

Rabiscada no olho e na boca
Melodia tranquila mas ao som de tambores
Arrebatadora fêmea vestida de amores
Criança sensível e protetora 

Loba possessiva e invasora

Suave amor arrasadora paixão
Sonha, ó cabocla, com casinha no campo
Devaneia, ó princesa, vestida em seu manto
Menina mulher, doce e feroz encanto...






INVISÍVEL

Apesar de terem me visto nem assim também me acharam
talvez até tivessem revirado esses versos amarrotados
mas que nada, nem aqui nem lá me encontraram

Rótulos e preconceitos inúmeros
nem argumentos frágeis os negam
nem assim me enquadram
pois se veem o corpo a alma os cegam

Fico e vou, nem mais aqui eu estou
sobraram as palavras, os sentimentos
talvez um sonho que nem eles nem o tempo apagou.







sábado, 21 de maio de 2016

RECOMEÇO

Nenhum pálido festejo a ser celebrado
Eis o retrato em preto e branco de um tempo deserdado
No qual sobejam explicações e faltam motivos
Gestos contidos, sorrisos encenados e pouco intuitivos

Expira-se o homem incompreendido
Passa o tempo sem ser vivido
revira-se o baú em busca de um alento
que torne sonho o que parece tormento

Que válido seja esse devaneio à forceps parido
nem que seja para inspirar versos que lhe deem sentido
Que permitam que essa ansiedade repouse serena
na beleza inquieta de uma pele morena

Que na vida e na arte o caminho mais uma vez refeito
seja ainda que imperfeito a chance de recomeço  
sobrevida e transformação de quem sempre mutante
encontra nas mudanças a razão ainda que mesmo distante

sábado, 2 de janeiro de 2016

OS POODLES, OS JUDEUS E O MINHOCÃO

Recentemente mudei de endereço residencial.  Isso sempre traz novidades e reflexões, até mesmo para um cigano contumaz. Pois, feitas as contas, em dezesseis anos a atual é a minha sétima alteração de domicilio.  Haja carreto. O mundo gira, a lusitana roda e... eu mudo. Aqui cabe uma legenda aos meus jovens leitores: a Lusitana era uma famosa transportadora especializada em atender cronistas nômades. Andiamo via!!!

Mas tenho a impressão que devo “sossegar o facho”. Aliás, ando com esse objetivo.  Em todos os sentidos. Mas voltando à casa nova, mudei para o “baixo” Higienópolis ou “altos” de Santa Cecília.  Agora é a vez de desenhar a piada para os não paulistas. Moro bem na divisa dos dois bairros, Higienópolis, luxuoso e valorizado, e Santa Cecília, este último, digamos assim, sem o mesmo luxo do reduto de FHC e  de outros “ilustres” paulistanos.

Da minha quadra para cima, sentido shopping Higienópolis, proliferam os quipás, os chapéus judeus ortodoxos, as vestes comportadas das mulheres e as tradicionais famílias judias, formadas, em geral,  pelo casal e dois filhos. Lá circulam, ainda, os poodles brancos, alvos tal qual a indumentária das babás, comuns na região. Entre prédios de alto padrão e padarias nababescas completam o cenário da região as academias de grife. E até algumas mais modestas, entre as quais uma delas este escrevinhador é assíduo frequentador. Afinal, malhar faz bem pra cabeça e até para o corpo também.

Já do meu quarteirão para baixo, rumo ao Minhocão - deste acho até que os europeus já ouviram falar - transitam, por assim dizer, uma casta mais modesta da sociedade paulistana.  E pensante e pulsante!  O lado artístico, descolado e intelectual da região. Assim como espreitam os três mil e quinhentos metros do famoso viaduto “Malufista” prédios cinzentos, feios e depreciados pela fumaça, o barulho e pela burrice das autoridades.

Mas creiam que o Minhocão é arte, não por obra do infeliz e desastrado projeto de quem o concebeu, mas sim pela capacidade de improviso, reinvenção, sobrevivência e adaptação do homem. Por afinidades, democráticas, intelectuais e atléticas,  por lá eu dou as caras. Correr é preciso. E na mistura do cheiro de maconha e similares, dos latidos dos vira-latas e do lazer de outros (sobre)viventes também sem pedigree, percebo que há vida inteligente e solidária que humaniza aquele estúpido monumento à priorização da máquina ao homem. 




segunda-feira, 12 de outubro de 2015

À FLOR DA PELE

Por tudo tão descartável seduz-me o fascínio da tatuagem
não por ser moda, efemeridade que tanto incomoda
mas sim pelo encanto do que perdura por toda a viagem
por isso não traga à flor da pele o que não lhe pertence...

Que outro sentido se tem para o anseio de tantas vivências
se não o mosaico que nos tornamos com essas experiências
marcas de vida, indeléveis na alma e no corpo
de quem errou e acertou, viveu e amou
e que sei lá para o quê não se guardou 

Como se o mundo asséptico não envelhecesse
como se a vida dissimulada também não morresse
Marias, versos, lágrimas, prazeres, caminhos e paisagem
que passam,  mudam,  mas ficam marcadas  na pele.

domingo, 27 de setembro de 2015

DO FIM PRO COMEÇO

                       

Benjamin Button mental. O corpo segue o ciclo natural, mas a mente, renitente, tem curso “anormal”.

Nasce com alzeimer, sem registros da fase oral. Memórias de tombos e de pesadelos de noite e de dia. Infância furtada. Sem fantasia.

Depois os sofás, ora aqui ora ali. Já conseguia sonhar!  Mas ainda constrito, sem chances de errar.

Cresce logo, para ganhar dinheiro. Sem tempo de se formar engenheiro vira vassalo de banqueiro. Atalho ao poder e às atenções.  Revide ao destino pelo sufoco e humilhações.

Adultece em quixotescas ou comezinhas batalhas. Mas começa a virar criança, indultado pelas medalhas. Se dá às fantasias. Desajeitado com elas, se entrega sem distinguir realidades e utopias.  Descobre, no amor e na dor, suas idiossincrasias.

Envelhece com alma de criança travessa. Ou de poeta, que vive seu tempo de forma avessa. Do fim pro começo. Como se sonhasse com um novo recomeço.